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29/09/2018

Visão de cadeia é necessária para atender exigências do mercado da triticultura

Visão de cadeia é necessária para atender exigências do mercado da triticultura

Reunidos em Pelotas na sexta-feira (29/09), pesquisadores e representantes da cadeia produtiva do trigo discutiram evolução, inovações tecnológicas, atualidade, desafios e os rumos da triticultura brasileira. Entre os tantos assuntos tratados, dois em especial ganharam destaque: a genética das cultivares usadas nas lavouras nacionais e as exigências do mercado com a qualidade do trigo brasileiro. Para os participantes a visão de cadeia produtiva é o principal meio de melhorar a qualidade do produto nacional e reduzir a dependência brasileira das importações.

O primeiro ponto foi destacado tanto pela Gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Fundação Pró-Sementes, Kassiana Kehl como pelo professor Dr. da Universidade Federal de Passo Fundo, Luiz Carlos Gutkoski que sentenciou: “para fazer qualidade de trigo, é preciso cuidar da genética”.

De acordo com Kassiana as cultivares colocadas atualmente à disposição dos produtores brasileiros evoluíram muito em relação as cultivares usadas há duas ou três décadas. "Dentre os avanços que podemos citar temos a adaptabilidade ao clima, materiais resistentes à ferrugem amarela e a ferrugem da folha, materiais mais resistentes à tolerância do alumínio e ao mal do pé. Em vista disso temos materiais com boa sanidade foliar e que o produtor vai despender menos custos de manejo com alto teto produtivo”, disse.

Porém, a gerente argumentou que ainda há muitos desafios a vencer até se obter uma cultivar capaz de atender todas as necessidades dos produtores e da indústria. Atualmente os esforços dos cientistas da fundação estão voltados para tornar as plantas mais resistentes às doenças de espiga e de germinação, como giberela e brusone. “São doenças ligadas diretamente à segurança alimentar, pois as micotoxinas geradas pelo fungo são perigosas”, comentou.

De acordo com Kassiana a fundação tem, hoje, mais de 200 cultivares inscritas no RNC, mas nem todas ainda estão à disposição dos produtores. A gerente ainda destacou a elaboração do Ensaio de Cultivares de Rede, realizado anualmente desde 2008 pela fundação com o objetivo de avaliar o desempenho das cultivares nas diferentes situações. “A cada ano 40 cultivares são testadas e as observações disponibilizadas aos produtores. Esses resultados ajudam a escolher aquela que melhor se adapta a cada região”.

QUALIDADE & CADEIA – “Uma pergunta que devemos fazer é se vamos continuar moendo trigo ou vamos fabricar farinha?”. Com esse questionamento Gutkoski deu início a explanação durante a qual abordou as exigências do mercado com relação à qualidade do trigo produzido no Brasil no século XXI.

“Esse mercado quer uma matéria prima que atenda a esse produto que ele pretende fazer. Para isso o moinho tem que comprar o trigo correto para fornecer o produto adequado ao seu usuário e tem que entregar uma farinha estável, homogênea e com cada vez menos aditivos e coadjuvantes”, explicou.

Para atingir a qualidade do grão exigido pelo mercado, Gutkoski defende ser necessário analisar todas as etapas da cadeia e ter especial cuidado com genética, manejo e as operações de pós-colheita. A necessidade de ter um olhar minucioso sobre a cadeia produtiva também foi defendido pelo coordenador do Labgrãos, professor Dr. Moacir Cardoso Elias, que após falar sobre novas alternativas de secagem e armazenagem de trigo ponderou: “alternativas para assegurar um aumento da qualidade do grão nacional existem, mas elas chegam aos produtores? Chegam, mas com dificuldade. Quem pode melhorar isso é um sistema de cadeia no qual se tenha consciência de que o elo mais forte segura o elo mais fraco”.

CADEIA EM DADOS - Dados apresentados pelo Secretário Executivo do Sinditrigo/RS, Heverton Borges possibilitaram visualizar o momento atual da cadeia produtiva desde as lavouras até as gôndolas dos supermercados. Conforme os números do Sinditrigo/RS a produção brasileira de trigo gira em torno de 4,5 milhões de toneladas/ano a 5 milhões de toneladas/ano, sendo que dos campos gaúchos saem a cada ano aproximadamente 1,8 milhão de toneladas do grão.

Para atender a demanda nacional, que fica na casa de 11 milhões de toneladas/ano, o país importa o restante da matéria-prima necessária para os 196 moinhos nacionais que somados têm capacidade para moer até 15 milhões de toneladas/ano. “Os três estados do sul respondem por 31% da produção brasileira de farinha de trigo, mas essa participação poderia ser maior, pois somente o RS tem capacidade para beneficiar dois milhões de toneladas por ano, mas mói 1,5 milhão”, disse.

Borges mostrou, ainda, que 55% da produção é destinada a panificação, 14,7% para a produção de massas secas e 14% para uso doméstico. Os outros 16% são usados em produções diversas que incluem biscoitos, bolos, etc. De acordo com o secretário do Sinditrigo-RS um dos desafios atuais é aumentar o consumo per capita que está muito abaixo da média mundial e de países vizinhos com a Argentina. “Cada brasileiro consome por ano em média 28 quilos de pão, enquanto que na Argentina essa média é de 85 quilos/ano. Já o consumo per capita de farinha no país é de 40,6 quilos/ano enquanto a média mundial gira em torno de 85 quilos por ano. Ou seja, há espaço para crescer só temos que unir esforços e encontrar os caminhos para isso”, sentenciou.